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Nenhum Sorriso

Já comentei quão sortudo eu sou por morar perto do trabalho e andar sempre contra fluxo. Vou e volto, tudo parado do lado de lá e eu chego no trabalho ou em casa em treze minutos e vinte e cinco segundos.

Nos raros momentos em que preciso enfrentar o trânsito parado são ocasiões de observação.

Sexta-feira preguiçosa, de cara amassada. Ocre no ar, no cheiro. Sexta-feira cansada.

Olhei para um lado, para o outro, retrovisor e ninguém sorria. Nem um sorriso. Nenhum mesmo.

Quase chegando ao meu primeiro destino, a passageira do carro do meu lado esquerdo parecia estar sorrindo, mas quando virou o rosto para a janela   : /

Até encostou a cabeça para trás num movimento de ai meu deus do céu. Acaba logo.

Nem pedestres sorriam. Motoristas de ônibus, passageiros, motoristas de carrões, carros médios, carrinhos; ciclistas, skatistas. Nada. Ninguém. Nem um sorriso. Nenhunzinho.

Será que é a previsão de trinta e dois graus e vinte por cento de umidade relativa do ar? Talvez estejam todos guardando energia para o resto do dia.

No caminho do primeiro para o segundo destino, parado no sinal vermelho, um casal na calçada parecia rir. Olhei de novo, até abaixei a cabeça assim meio de lado para olhar pela janela do passageiro, mas já   : /   novamente.

Daí fiquei encucado. Perdi o memorando?

O interessante é que tanto quanto a falta de sorriso, também havia falta de mau humor. Não se notava cara feia, imprudência. Ninguém xingou ou buzinou para reclamar de nada. Você aí na frente, vai mudar de faixa. Muda, meu filho, entra na minha frente que eu não estou nem aí. Sabe aquele equipamento opcional, a seta, o pisca-pisca? Não precisa se dar ao trabalho.

Sexta-feira anestesiada, no piloto automático.

Eita preguiça, gosto de argila no ar.

Pode ter sido também a propaganda política. Quem gosta de rádio, tem de deixar de ouvir o programa que sempre ouve; ou continuar com o rádio ligado e ouvir o quanto o país está perfeito e que tudo funciona. Ou como estamos perto do fim.

Eu preferi ouvir música. Fui ao primeiro destino ao som de Skank, pula Djavan, Adele, pula Beethoven, pula essa que eu não conheço, Carl Orff, Dave Mathew's Band, Bruno Mars, pula Titãs, Ira. Cheguei.

Claro que é pessoal. Pessoal de minha parte com o resto. Nada de sorriso. Bom dia pra atendente, sorriso forçado.

Sexta-feira marrom, oxidada. Que se acabe logo. Mas demorou. Nem um sorriso. Nenhum.

Marcelo Elias

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